
O Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba é formado por diversas seções, entre elas, a mostra Novos Olhares, que destaca longas-metragens com maior radicalidade em suas propostas estéticas.
Um dos destaques da seleção desta 11ª edição é o longa paraibano Pele Fina, de Arthur Lins, do premiado Desvio e dos curtas O Matador de Ratos e A Felicidade dos Peixes. Exibido no domingo, 05/06, com reprise no dia seguinte, o filme acompanha Luísa, interpretada por Ingrid Trigueiro, que viaja para uma praia deserta com sua família durante a escrita de uma adaptação da peça Psicose 4.48, da autora inglesa Sarah Kane.
Imersa no texto, Luísa vê as pulsões da obra se intrincarem cada vez mais à sua realidade e a levarem ao limite entre a adaptação e o delírio. Entre o teatro, o rascunho, as imagens de arquivo e as complexas memórias e relações familiares, Arthur Lins utiliza diferentes registros de encenação para compor um pequeno conto tropical sobre um complexo processo de criação.
Para falar mais sobre o filme, o diretor participou de um debate com o público, logo depois da primeira sessão, no Cine Passeio, que foi mediado por Carla Italiano, e contou também com a presença da protagonista Ingrid Trigueiro e da produtora Mariah Benaglia.
Sobre a questão do teatro na narrativa, Arthur falou: “Não queria ficar imerso em um processo de criação de teatro o tempo todo. A ideia era que o elemento teatral estivesse contaminando aquilo que não era do processo criativo. O cinema é um lugar que eu me sinto mais à vontade e que tenho mais afinidade por fazer filmes, já que nunca tive uma experiência em dirigir uma peça de teatro. Nisso, Ingrid ajudou muito por ter uma experiência muito grande. Eu me surpreendo com a atuação dela até hoje. Era realmente um trabalho de descoberta e ela me ajudou muito a entender como que o teatro se coloca no corpo, na cena. Era como se Ingrid fosse o teatro”.
E completou: “Tem um lugar da encenação, da mise en scène, que é próprio do cinema e que, inicialmente, era o lugar que eu estava mais interessado em investigar. Além disso, a questão do gênero vai contagiando o filme. Quando estávamos perto de filmar eu quase desisti de falar sobre Sarah Kane e do que ela elaborava como dor. Comecei a pensar em Clarice Lispector por ter uma relação mais próxima. Porém, Clarice já é um lugar tão colocado. Mas, de fato, quase dei um passo atrás porque tem uma questão de gênero que eu jamais vou conseguir me aproximar, como diretor, em determinadas instâncias. Houve uma contribuição criativa e efetiva de mulheres e engajamento que eu não tive em nenhum outro filme. Era uma zona delicada de me aproximar dessa pulsão e do que seria esse feminino no filme”.
A produtora Mariah Benaglia com Ingrid Trigueiro e Arthur Lins.
Sobre a personagem principal, Ingrid Trigueiro comentou: “Tem uma fusão do que é real e o que não é. Isso tudo vira, na cabeça da personagem, um conflito. As coisas se misturavam. A gente não entrega de graça e quem assiste é que percebe isso e vê como ela está totalmente voltada à uma descoberta. Ela se questiona o tempo todo e tenta se encontrar. As coisas se misturam fortemente entre passado e presente”.
Durante o debate, a equipe do filme também relembrou a questão da pandemia de Covid-19, que afetou as filmagens: “Estava tudo certo, até que chegou a pandemia. Com isso, sofremos um corte. A palavra que me vem é incerteza. Tivemos que parar e voltamos para casa todos muito assustados. Não sabíamos o desdobramento do que aconteceria. Era muita insegurança e muito medo. Quando voltamos para as filmagens, em uma pseudo tranquilidade no final do mesmo ano, já era outra coisa. O set já tinha se transformado porque tínhamos todos os protocolos para seguir. A angústia do texto também estava no nosso cotidiano. Fomos de um extremo a outro. E hoje estou muito feliz e emocionada de conseguir mostrar esse trabalho pronto aqui”, revelou Ingrid.
A produtora Mariah Benaglia também comentou: “Foi muito louco trabalhar em um filme que falava sobre essa pulsão de morte quando a gente viveu na nossa geração a coisa mais crítica em relação a não existência. O texto parte muito de um processo individual para transformá-lo em um coletivo. Por conta desse processo de um filme interrompido tivemos a oportunidade de ver esse material durante um tempo. Ao passar pela pandemia e revisitar o material, fomos entendendo que o filme foi se desdobrando em outros caminhos. Isso foi necessário para conseguir seguir nesse ano que a gente não sabia o que estava acontecendo”.
Ao final do debate, Arthur falou sobre a experiência de voltar com as exibições presenciais: “Tem uma coisa meio surrealista, uma fronteira borrada do cinema de criar um espaço. Por isso o filme faz ainda mais sentido numa sala de cinema; de criar um espaço com aquelas camadas sonoras, texturas e questões que são do cinema com o cinema. É importante elaborar esse espaço da tela que se espalha pela sala toda e cria um imaginário mental”.
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Fotos: Marcelo Deguchi.